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Carta sobre deusa Ceres
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Descaso com Estrada de Ferro histórica
Detalhe do descaso com a linha férrea da antiga Estrada de Ferro Oeste de Minas - EFOM, em São João del-Rei - MG. Nota-se a falta de conservação do acervo ferroviário (conforme mostra a foto, está faltando uma parte dos trilhos). Estes danos estão visíveis no trecho do desvio que fica na praça principal do Bairro de Matosinhos. A Estrada de Ferro é tombada em nível nacional pelo IPHAN e atualmente está sendo explorada para fins turissticos pela Estrada de Ferro Centro Atlântica (FCA). A EFOM, um dos mais importantes patrimônios da cidade, do Estado e do País, foi inaugurada por D. Pedro II e é a única ferrovia em bitola de 76 cm em operação no mundo.

Foto de José Antônio de Ávila Sacramento, em 26 de julho de 2009
Deusa Ceres: ela não é italiana, é francesa!
José Antônio de Ávila Sacramento *
Durante muito tempo, desde que comecei a tecer comentários sobre o abandono em que se encontra o Chafariz e Estátua da deusa Ceres, acreditei que a procedência daquele gracioso conjunto teria sido fundido na cidade de Turim, norte da Itália. Tal fato se deu, principalmente, porque a Revista Vertentes número 1, editada pela então FUNREI (atual Universidade Federal de São João del-Rei - UFSJ), em 1993, trouxe na capa uma foto da deusa Ceres e registrou que a sua procedência seria italiana.
Mas a história deve ser entendida como a ciência dos homens no tempo, o conhecimento do passado é coisa em progresso, feita de fatos e da interpretação deles, que constantemente se transformam e aperfeiçoam. A história é “um processo contínuo de interação entre o historiador e seus fatos, um diálogo sem fim entre o presente e o passado”; por fim, uma “verdade histórica” pode ser transitória, pois quando novos fatos lhe são acrescentados, a sua interpretação tende a mudar.

Foi o que aconteceu neste frio mês de julho de 2009, quando o professor Antônio Gaio Sobrinho, com um olhar bastante atento para as peças que agonizam no meio da principal Praça do Bairro de Matosinhos, descobriu meio que encoberta por muitas camadas de tinta, na parte frontal da base da estátua, a inscrição: “Val d’Osne”.
Aquela inscrição começou a intrigar a mente do professor Antônio Gaio. Pesquisando, ele descobriu que a inscrição é uma “assinatura” da célebre Fundição Val d’Osne, da cidade de Osne-le-Val, Departamento de Haute-Marne (Alto Marne), Região da Champagne-Ardenne, na França.
Aquela fundição fora estabelecida em 1836, por Jean Pierre Victor André. De modo diferente de outras fundições à época, que se limitavam a produzir peças utilitárias como canos, vasos e placas, Victor André preferiu dedicar-se à fundição artística, obtendo bastante sucesso neste ofício. Em 1844, a fundição contava com mais de duzentos operários, vindo a atingir o auge de sua produção entre 1870 e 1892, com o nome “Societé Anonyme de Fonderies d’Art du Val d'Osne”. A empresa, infelizmente, encerrou as suas atividades no ano de 1986.
Naquela fundição trabalharam ou fundiram suas peças renomados artistas, alguns deles com obras espalhadas pela cidade do Rio de Janeiro, como, por exemplo, as fontes e chafariz do Jardim Botânico, criadas por Charles Lebourg, Pierre Loison e Louis Sauvageau. Apesar de se dedicarem a fazer obras únicas, estes escultores franceses também destinaram modelos especialmente para a chamada “arte em série”, considerada um símbolo do progresso industrial da época. Eram as chamadas “Fontes d’Art”, frutos de uma boa fusão da indústria com a arte.
Ainda em São João del-Rei, uma outra graciosa peça ornamenta os jardins laterais da Igreja de Nossa Senhora do Carmo; esta peça, que tem o mesmo estilo do Chafariz da deusa Ceres, pode também ser um produto originário da Fundição Val d’Osne.
Assim, quando comemoramos o “Ano da França no Brasil”, fica aqui consignado este formidável registro em favor da história de um dos belos monumentos da cidade de São João del-Rei e, também, da história franco-brasileira. Creio que a descoberta definitiva da procedência de um de nossos últimos chafarizes seria uma boa oportunidade para se provocar a embaixada francesa no Brasil para que a peça seja catalogada, e, quem sabe, para que o governo francês possa patrocinar a sua restauração antes que ela pereça de vez. Que assim seja!
ANO XI - NÚMERO 125 - JULHO DE 2010



