OS TRÊS CAMINHOS

            A hipótese que defendo é a de que haviam dois caminhos para o sertão de Minas Gerais, partindo de Cruzília. O primeiro dos dois caminhos e mais antigo foi o percorrido por Fernão Dias Paes, a partir de 21 de julho de 1674, o qual partiu de São Paulo até se dar em Cruzília, tomando em seguida a direção de Ibituruna, Itapecerica e Pitangui, estas no centro leste de Minas Gerais, para chegar a Paraopeba no centro norte, ou seja, lados opostos do tripui descoberto posteriormente. Não é atoa que denominaram a BR-381 que parte de São Paulo com destino a Belo Horizonte, capital do estado de Minas, de rodovia Fernão Dias. A rodovia Fernão Dias fica praticamente paralela às várias cidades citadas pelos bandeirantes, tais como Lambari, Cruzília, Ibituruna e Itapecerica. O historiador e cartógrafo Eduardo Canabrava Barreiros (1908) também defende a idéia de que o caminho trilhado por Fernão Dias seguia de Ibituruna para o nordeste e não passava pelo Porto Real. Basta pensar que de Ibituruna ao Porto Real são cerca de 75 km de distância, sem contar a volta que dariam do Porto Real a Paraopeba.

            O renomado historiador Tarquínio J. B. de Oliveira descreve no pé da página 312 da Corografia Histórica de Raimundo José o seguinte:

Matias Cardoso de Almeida, ajudante de Fernão Dias, foi provido capitão mor da primeira leva, que partiu na seca de 1673, indo plantar roças naquele sertão (Sumidouro). Seria a base do Sumidouro do Rio das Velhas, com três escalas anteriores: Ibituruna, Paraopeba e Roça Grande”.

                Nessa citação parece que Fernão Dias mandou seu companheiro, amigo e ajudante Matias Cardoso seguir na frente, desbravando sertões e plantando roças para alimentar um batalhão de desbravadores que viriam depois.

                                Maria Luiza de Castro Siqueira in Levantamento Histórico e Toponímico do Município de Itapecerica descreve que.. “Em 1676 Lourenço Castanho Taques, filho de Pedro Taques e de Dª. Ana de Proença, atendendo a um pedido da Coroa que veladamente era uma ordem, formou uma bandeira às expensas de seus cabedais para conquistar o território dos Catu-auá, tornando assim livre o caminho para a ocupação de Minas. Desempenhou seu trabalho expulsando os índios para além das fronteiras dos países do Tamanduá (Itapecerica) e do Pinhuí”. Com isso prova-se mais uma vez que o caminho Ibituruna, Itapecerica, Pitangui e Paraopeba existiu antes do Porto Real da Passagem.

                                Ora, sabendo-se que o Sumidouro tinha por base        Paraopeba no centro norte de Minas e sumia (sumidouro) para o norte até Montes Claros, é inadimissível que as bandeiras de Fernão Dias tivessem passado antes pelo Tripuí (centro-leste), região riquíssima em ouro e que só foi descoberta a partir de 1691/92, ou seja, muitos anos depois.

                                Sendo assim, o segundo caminho que raciocinamos ter sua existência após 1695, também partia de Cruzília, mas com destino a Minduri, Carrancas, Porto Real da Passagem em São João del Rei (Matosinhos), Itaverava e Tripuí, este último, local de partida dos exploradores da região do Distrito de Ouro Preto.

                Sabendo-se que em Itaverava foi a primeira localidade onde encontraram ouro em quantidade no sertão de Minas Gerais, podemos imaginar que primeiramente os descobridores sairam de Taubaté atravessaram a serra da Mantiqueira, chegaram na atual cidade de Cruzília, e daí para Ibituruna. De Ibituruna atravessavam o Rio das Mortes e embrenharam-se no sertão com destino a Paraopeba.

                Portanto, a fundação do Porto Real somente ocorreu, em linhas gerais, com a volta dos desbravadores de Paraopeba, passando pelas ricas reservas auríferas do Tripui com destino a São Paulo e Taubaté.

                Assim, podemos concluir que, o primeiro caminho (1674) foi o percorrido por Fenão Dias, ou seja: Taubaté – Cruzília – Ibituruna – Itapecerica – Paraopeba. O segundo (1691/92): Paraopeba – Sabará (Sabarabussu) – Bonfim – Itaverava (Tripui) – Carijós (Conselheiro Lafaiete) – Lagoa Dourada – São João del Rei – Carrancas – Cruzília – Taubaté. Finalmente o terceiro: Rio de Janeiro – Matias Barbosa – Juiz de Fora – Barbacena – Conselheiro Lafaiete – Tripui.

                Todos os três caminhos chegavam ao tripui, base para explorar a maior reserva de ouro existente no Brasil setecentista, que era a Comarca de Vila Rica (Ouro Preto).

                E para reforçar a criação do terceiro caminho, aqui vai mais uma citação do maior e mais convincente narrador dos primórdios de Minas Gerais, Bento Fernandes, in “Notícias dos primeiros descobridores das primeiras minas de ouro pertencentes a estas Minas Gerais – Pessoas mais assinaladas nestas empresas e dos mais memoráveis casos acontecidos desde seus princípios”,  impressos em Relatos Setanistas, de Afonso de Taunay:

“E passados mais anos, descobriu a Aiuruoca, pelo sertão, que então era a parte do sul da estrada, que vai para São Paulo, três dias de jornada afastado para aquela parte de São João del Rei, em as cabeceiras do Rio Grande”. (Relatos Sertanistas, pagina 46).


 

 

- BAIRRO DE MATOSINHOS, BERÇO DA CIDADE DE SÃO JOÃO DEL REI

            Com a chegada da tropa de Tomé Portes del Rei em Matosinhos, ou mais especificamente no Porto Real da Passagem, em 1701, foi se desenvolvendo um povoado que sobrevivia em decorrência dos excelentes recursos locais, e alguns de seus habitantes comercializavam criações, gêneros alimentícios e ouro, em troca de sal, azeite, velas, roupas etc. Este tipo de comércio pode ser atestado pelas cópias de cartas que encontramos no Arquivo Público Mineiro, datadas de 27 de junho e 28 de agosto de 1720, encaminhadas a Lisboa aos atacadistas Sr. Francisco Pinheiro e Luís Alves Pretto, pelo comerciante do Rio das Mortes João Deniz de Azevedo.      

            O primeiro comerciante de Matosinhos de que temos notícia foi próprio Tomé Portes del Rei, que ainda tinha o direito de explorar a cobrança da passagem daquele Porto, que no princípio era feita por barco e após 1730 por ponte de madeira. A Tomé Portes também foi conferido o título de Guarda-Mor, título este dado somente a homens de confiança do governo português. Com sua morte, seu genro Antônio Garcia da Cunha, apoderou-se do direito da cobrança da passagem e a ele também foi passado o título de Guarda-Mor. Ao genro de Tomé Portes sucederam-se vários outros contratadores. 

            Sabendo nós que o núcleo da atual cidade de São João del Rei, somente foi iniciado no ano de 1704, com a descoberta de ouro nas imediações do Senhor dos Montes e da igreja das Mercês, somos obrigados a acreditar que o atual Bairro de Matosinhos é o berço da cidade de São João del Rei, porque este local já era povoado antes de 1704 e sem dúvida nenhuma, grande parte desse povoado formou o novo núcleo do Arraial Novo do Rio das Mortes, que depois sucessivamente passou a chamar-se Arraial de Nossa Senhora do Pilar e posteriormente São João del Rei.

            O formador do primeiro núcleo de São João del Rei, foi exatamente o bandeirante Tomé Portes, sendo que temos de concordar que cabe a ele o título de fundador da cidade de São João del Rei e Tiradentes, já que o fundador de um povoado é aquele que chega primeiro e se estabelece, mesmo não tendo a intenção de assim fazê-lo. Diríamos que se chegasse alguém nas imediações de São João e Tiradentes por volta do ano de 1701 e pedisse para falar com o comandante, só poderia falar com o Sargento-Mor Tomé Portes del Rei, líder de uma região, cujos primeiros ocupantes eram seus parentes e amigos. 

            O grande historiador são-joanense Augusto Viegas informa em seu livro “Notícias de São João del Rei”, 3ª edição, à página 15, que Milliet de Saint Adolphe e Monsenhor Pizarro afirmaram que os paulistas começaram a eregir a primeira igreja da região, em 1703, que só poderia ser na Vargem do Porto Real da Passagem, local onde se estabeleceram os paulistas, antes do português Manoel João de Barcelos encontrar ouro em 1704, a qual não foi terminada dada a debandada dos habitantes para a extração de ouro nas imediações da igreja das Mercês e no ribeirão São Francisco Xavier, atrás do bairro Senhor dos Montes. Muito provavelmente essa mesma igreja inacabada foi escolhida para construção dos quartéis dos soldados do Rei, conforme mandado do Governador da Capitania de Minas, Conde de Assumar, em 06/09/1719. 

            Com esta notícia datada de 1703, temos ainda mais indícios de que Matosinhos possuía um número razoável de habitantes naquela época, a ponto de construir uma igreja, cujo tamanho dava até para acomodar, por menor que fossem, tropas do Rei e demais equipamentos necessários a uma tropa de milícias.


- O PORTO REAL DA PASSAGEM

            O grande historiador são-joanense, Sebastião de Oliveira Cintra, escreveu em suas "Efemérides de São João del Rei" (1982), que a 11/07/1730, o senado da Câmara solicitou a D. João a construção de uma ponte que separa São José de São João del Rei, a qual foi construída por Marçal Cazado Rotier, português que posteriormente seria proprietário de toda Várzea do Marçal. A Várzea do Marçal foi por duas vezes cogitada para ser capital.  Da primeira vez, para ser capital do nosso país, projeto dos Inconfidentes, caso ficássemos independentes de Portugal. Da segunda vez, para ser capital de Minas Gerais, quando resolveram tirar a capital mineira de Ouro Preto. A região aprovada pelos engenheiros da Novacap, inclusive pelo seu coordenador Dr. Aarão Reis, que achou a Várzea do Marçal ideal por ser plana e banhada pelo Rio das Mortes. A idéia não foi à frente, porque na última hora um Deputado de Barbacena (MG) levou a Assembléia decisiva para lá e, por apenas um voto, São João del Rei perdeu para o Arraial de Curral Del Rei, atual cidade de Belo Horizonte.

            Marçal Cazado Rotier cobrava pedágio de pessoas que passavam pela ponte, sendo que a cavalo, por causa da carga, pagava-se o dobro.

            A 15/07/1736 a Câmara convocou seus usuários para resgatarem a ponte a troco de doações em ouro, no intuito de evitar o pagamento do pedágio na ponte, o que parece não ter acontecido, pois aos 17/10/1744, o Senado da Câmara escreveu ao Governador pedindo declarar livre o Porto Real da Passagem, isentando seus usuários do pagamento do pedágio, que também não deve ter sido realizado, pois temos registro que em 1786 Manoel Cardoso Pais exerceu a administração das passagens do Porto Real, da qual era contratador o Dr. Manoel de Sá Fortes de Bustamante e no triênio de 1799 a 1801, o são-joanense Dr. Gomes da Silva Pereira. O historiador Dario Cardoso Vale registrou em seu livro "Memória Histórica de Prados" (1985), que já em 1715, o Senado da Câmara de S. João del Rei pediu liberdade do Porto nos seguintes termos

"Nesta Villa se acha um Rio que vulgarmente chamam das Mortes, e por ser invadiável, há nele barca de passagem, e por ordem dos Governadores destas Minas se pos a tal passagem em praça, e os rendeiros dela obrigam aos moradores desta Villa e seu termo a pagar a passagem que fazem para suas Fazendas e comunicação de uns Arraiais circunvizinhos, Villas e mais partes donde há as tais passagens, os moradores delas suplicam isenções, nos parece dar contas a S.M.(Sua Majestade), e prostrados a seus reais pés, pedir-lhe que ira fazer-nos a graça de que os moradores desta Villa e seu Termo sejam escusos de pagarem as tais passagens, e que só o façam os viandantes. V. Majestade mandará o que for servido. - Deus guarde a real pessoa de S. Majestade. - São João del Rei, maio de 1715, e eu Joseph da Silveira Miranda, Escrivão da Câmara que o escrevi. (Da folha 2, do livro da Câmara de São João del Rei)”.

            A verdade é que os transeuntes não conseguiram isenção do pagamento com exceção dos militares pagos e militares da tropa auxiliar (1), conforme livro códice número 9, Seção Colonial, do Arquivo Público Mineiro.

            Os contratos de passagem do Porto Real realizados pela Câmara Municipal (2), tiveram início a 10 de maio de 1708, em que foi arrematante Pascoal de Macedo. Em 27/03/1711, por 400 oitavas de ouro, Pascoal de Macedo torna a arrematar a passagem do Porto Real, por permissão do Procurador da Fazenda Real Damião de Oliveira e Souza, sendo escrivão Manoel Dias de Britto. 

            A Ponte do Porto tem um passado bastante histórico e alguns pontos curiosos. Neste local, antes de 1730, o único meio de atravessar o rio era a barco e pagava-se por este meio de transporte. Em 1735, o português Marçal Cazado Rotier, que posteriormente foi dono de toda Colônia do Marçal, construiu com seus próprios recursos, uma ponte de madeira, e começou a cobrar pedágio de quem passasse por ela, sendo que a cavalo, por causa da carga, pagava-se o dobro.  Por esta ponte passava-se obrigatoriamente todos os transeuntes que iam ou vinham de São Paulo e Paraty (litoral do Rio de Janeiro, próximo a Cidade de Taubaté em São Paulo) com destino às Minas Gerais, mais especificamente Ouro Preto, na época Vila Rica; Mariana, na época Vila do Ribeirão do Carmo; Sabará; Caeté, antiga Vila Nova da Rainha; Serro, antiga Vila do Príncipe; e muitos outros povoados que já existiam naquela época, inclusive outros sertões de Minas e sul da Bahia. Alguns transeuntes também optavam por passar pela Ponte do Porto, dada a riqueza do comércio local, onde as variedades eram muitas, tais como; sal, carne seca, couro, animais e outros alimentos. Até hoje podemos conhecer uma construção reformada ao lado da ponte, que, segundo seus proprietários, funcionou como depósito de sal, mercadoria na época importada e que chegava via Rio das Mortes.

            Inúmeras personalidades famosas e importantes já se utilizaram da Ponte do Porto. Duque de Caxias quando veio a São João del Rei pela primeira vez, foi festivamente recebido a partir desta ponte.                             Após Marçal Rotier vários outros contratadores administraram a ponte, sempre cobrando pedágio.  É a seguinte a relação de administradores do Porto Real da Passagem :

- 1700 a 1702 - Tomé Portes Del Rei;

- 1702 a 1708 - Antônio Garcia da Cunha (genro de Tomé);

- 1708 a 1730 - Pascoal de Macedo;

- 1730 a 1786 - Marçal Cazado Rotier, Custódio José Ferreira, Manoel Antunes Nogueira, Dr. Manoel de Sá Fortes de  Bustamante;

- 1786 a 1799 - Manoel Cardoso Pais;

- 1799 a 1801 - Dr.Gomes da Silva Pereira.

            A partir de 1801 parece que a administração regional passou a cuidar da ponte, porque não aparecem mais contratadores. Naquela época, o governo não tinha recursos para realizar grandes obras, então, passava-se o direito de exploração para determinadas pessoas, as quais construiam e recuperavam o investimento com aluguéis ou pedágios, como era o caso da Ponte do Porto.

            A respeito dessa famosa ponte, o Jornal "O Correio", de São João del Rei, edição de 19/11/1953, publicou notícia em manchete, com o título "Lamentáveis Desastres", no qual informa que segunda-feira, dia 16 do corrente, registrou-se um lutuoso acontecimento em que perderam a vida duas pessoas. Em direção à cidade de Coroas (hoje Coronel Xavier Chaves), um caminhão dirigido por Geraldo Tito, levando como passageiros um ajudante e mais duas pessoas, ao atravessar a ponte do Rio das Mortes no lugar denominado Porto Real, o veículo perdendo a direção, precipitou-se no rio. O motorista e seu ajudante conseguiram salvar-se milagrosamente, o mesmo não acontecendo aos outros dois passageiros, pai e filha, Sr. João Torres e Izaura de Oliveira, que pereceram afogados. A família do Sr. João Torres morava na antiga Rua Josué de Queiroz, em Matosinhos.

___________________________________________________

 (1 ) Pessoas influentes como grandes fazendeiros e comerciantes, que ganhavam  do governo o titulo de Coronel e gozavam de certos poderes, sem serem remunerados.

(2) Naquela época, as Câmaras Municipais obedeciam à estrutura das de Portugal, assim constituídas:

a) 2 Juízes Ordinários, também chamados de Ouvidor ou Juiz de Fora.

b) 1 Presidente do Legislativo ou Prefeito Municipal.

c) 3 ou 4 Vereadores.

d) 1 Escrivão ou Secretário.

e) 2 almotaces ou funcionários oficiais da Câmara.

 Eram eleitos pelo sistema de votação indireta, dentre os chamados homens bons.O ouvidor ou Juiz de Fora mais velho ia pedindo votos, e os seis mais votados, que eram separados em grupo de dois, e cada grupo escolhia dois juízes, três vereadores, um procurador e um escrivão.  Os votos eram recolhidos e contados pelo Juiz mais velho.


A GUERRA DOS EMBOABAS NO BAIRRO DE MATOSINHOS E A ESPADA CENTENÁRIA ENCONTRADA NO RIO DAS MORTES – UMA HIPÓTESE POSSÍVEL

            Acreditou-se por muito tempo que o famoso “Capão da Traição”, onde se desenrolou o principal episódio desta contenda (1708-1709), situava-se em Matosinhos, chegando a se erigir um marco no bairro, comemorativo e alusivo ao fato (Antônio Gaio Sobrinho, Sanjoanidades, p.13). Sabe-se hoje que situava-se na verdade na outra margem do rio, a légua e meia de distância rumo norte, próximo ao povoado do Pombal. (GUIMARÃES, Geraldo. O Capão da Traição. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, v.4, 1986, p.78-86.).

            O ouro, de fato, também foi explorado em Matosinhos. Houve um dique para trabalhos de sua mineração no Ribeirão da Água Limpa, no local denominado Ouro Preto, neste bairro, na antiga “Fazenda Velha”. O negociante inglês John Luccock, que por aqui passou em 1818 cita esta mineração. (Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1975.). Outro inglês, o pastor anglicano e desenhista  Robert Walsh, em 1828, escreveu: “Passamos pelo arraial de Matosinhos... o lugar tinha tido outrora uma mina de ouro bastante extensa. Para interceptar as partículas de ouro trazidas por um riacho da montanha, havia sido construído um dique através de uma ravina; o seu construtor, porém, não calculara a pressão da água e, após um prolongado período de chuvas, o dispendioso dique se rompeu, fazendo desaparecer com ele, numa única noite, todas as riquezas acumuladas à sua margem.” (Notícias do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985.). Mais tarde, em 1868, um terceiro inglês, explorador e diplomata, Richard  Francis Burton confirma: “Mais acima está uma ponte quebrada, que data do tempo em que Matozinhos tinha uma mina de ouro florescente. A explosão de um poço (...) acabou com a mineração.” (p.195). Sobre a estória contada pelo povo referente a um caso ocorrido na Fazenda, anteriormente citada, a qual sediava a mina, ver: Passarelli, Ulisses. Dois Causos de Matosinhos, narrados no capítulo?????, In: O Grande Matosinhos. São João del-Rei: ASMAT, nov. / 2000. Ano 2, n.13, p.2), denominados: Lugar Onde o Cachorro Falou e o Cala Boca.

            A exemplo do que ocorreu em "Serra Pelada” (estado do Pará), com a descoberta de ouro, na década de 1980, e que atraiu milhares de garimpeiros para lá, também aqui em Minas Gerais ocorreu idêntico fato no princípio do século XVIII. Os forasteiros denominados "Emboabas", (pessoas que chegaram na região das minas após a ocupação pelos Paulistas), com a notícia que se alastrou por todo o país da grande facilidade de se apanhar ouro por aqui, começaram a chegar a partir do ano de 1705, ocupando vários povoados auríferos, entre eles; Ouro Preto, Caeté, Sabará e São João del Rei. Aconteceu que os paulistas que foram os primeiros a desbravarem os sertões de Minas Gerais tinham como líquido e certo a posse das minas auríferas; só que, naquela época, o uso da força física por parte de alguns aventureiros e a falta de legislação a respeito, não davam nenhum direito aos paulistas. Com a chegada dos Emboabas, vários conflitos começaram a ocorrer. Há registros de que a 27/06/1707, um paulista assassinou um português emboaba, em Caeté (MG), diante de um outro português. Em outras cidades também houve conflitos.

São João del Rei, como possuidora de diversas minas auríferas, não ficou fora desses conflitos, denominados de “Guerra dos Emboabas”.

            Um episódio denominado Capão da Traição ficou marcado na Guerra dos Emboabas, onde estes chacinaram a tropa paulista, depois dos comandantes terem combinado uma trégua. Eduardo Canabrava Barreiros, autor de "Episódios da Guerra dos Emboabas e sua Geografia, Editora Itatiaia, 1982", ilustra em seu livro, que o local do Capão da Traição foi a cinco léguas do Arraial Novo do Rio das Mortes (São João del Rei), conforme sua interpretação dos escritos de Rocha Pita (1730) e do Padre Manoel da Fonseca (1752). Alguns historiadores defendem outros locais, tais como o Bairro de Matosinhos e Várzea do Marçal, esses dois últimos próximos ao Porto Real da Passagem. 

            O Emboaba José Alvares de Oliveira, participante ativo do movimento emboaba na região, inclusive, atuando nas lutas entre Emboabas e Paulistas naquela época, resumidamente escreveu o seguinte, conforme “História do distrito do Rio das Morte, sua descrição, descobrimento de suas minas, casos acontecidos entre Paulistas e Emboabas e criação de suas Vilas”:

... Acordaram logo [os emboabas] por em marcha um destacamento de 200 homens e chegaram a este Arraial [do Rio das Mortes] em dezembro de 1708, sob o comando de Bento do Amaral Coutinho.

Os Paulistas se dividiram em mangas [pelotões] e certo de que uma delas se meteu da outra parte do Rio das Mortes, coisa de légua e meia ao rumo do norte, comandados pelo Cabo Gabriel de Góes, Bento do Amaral Coutinho passou o rio com sua gente e alguma do Arraial.  E chegando a vista por sítio ao dito capão e os paulistas como de nada temiam pegaram nas armas, deram tiros e feriram alguns Emboabas. Assim sendo, os Emboabas ajuntaram o cerco e os Paulistas puseram as armas em terra e pediram quartel, sendo levados a presença do Comandante, onde foram mortos a sangue frio.  Após este episódio, Bento do Amaral se pos em marcha de volta dessas minas para as gerais...(Relatos Setanistas, página 94)

            Quando José Alvares de Oliveira cita o local da batalha como sendo légua e meia em direção norte, tudo aponta para a região da Fazenda do Pombal, já que a distância entre São João del Rei e a Fazenda do Pombal, em linha reta, é aproximadamente esta. E para reforçar ainda mais esta ideia, citaremos o seguinte fato:

                Em 1986, o pescador Jair Lombelo (falecido), residente no Bairro de Matosinhos, ao lançar seus anzóis à caça de peixes no Rio das Mortes, próximo ao quilometro 108 da Estrada de Ferro local, região da Fazenda do Pombal, recolheu uma espada, cujo cabo é ricamente trabalhado em cordões de pura prata, que ainda estão intactos, porém nele existem, colados, grânulos de areia petrificados pelo tempo. A alça junto ao cabo é de ferro fundido que, com o decorrer dos anos, foi afinando, afinando, até se partir ao meio.  A lâmina que se encontra sem a sua extremidade está, a exemplo da alça, totalmente enferrujada. Esta espada foi negociada, logo após ser pescada, por aproximadamente um salário mínimo daquela época, (U$70,00), segundo me disse o próprio pescador. Foi vendida para o Sr. José Trindade Soares, que na época morava no bairro de Matosinhos. Pedi ao José Trindade Soares, meu amigo desde infância, que me emprestasse a espada para encaminhá-la para uma análise mais pormenorizada e o mesmo não teve dúvidas em me cedê-la. Desta forma, eu encaminhei a mencionada espada ao dedicado e competente Professor João Bosco de Castro Teixeira, ex-Diretor Executivo da FUNREI, hoje Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ), que, contando com a colaboração de pessoas do Instituto Histórico e Geográfico de São João del Rei, tais como; Geraldo Guimarães, Sebastião Cintra, Professor Antônio Gaio, Jairo Braga Machado, e outros mais, resolveram consultar o Major Linhares, Sub-Comandante do 11º BIMth, Batalhão Tiradentes, que sugeriu o encaminhamento da espada ao Sr. Otávio Sérgio Pereira Coelho, perito do Museu Histórico do Exército, que assim se manifestou: “Trata-se de um achado arqueológico de grande valor, conhecida como "Rapieira", originada em Portugal, Espanha ou Sul da Itália (nesta ordem de possibilidades), provavelmente de 1650 a 1730, usada tanto por um militar como por um civil”.

            Temos notícias de que outras peças, inclusive espadas inteiras, foram achadas também naquela região, principalmente por garimpeiros, não identificados.

            O que pretendemos frisar é a grande incidência de peças antigas achadas na região da Fazenda do Pombal e a coincidência com os escritos do português-emboaba José Alvares de Oliveira, citando o local do Capão da traição, como sendo a légua e meia do Arraial Novo, rumo norte, o que me leva a concluir que a batalha do Capão da Traição foi realmente na região da Fazenda do Pombal.

            Quanto ao local onde se estabeleceram Paulistas e Emboabas durante a Batalha do Capão da Traição, concordo com o experiente historiador são-joanense Geraldo Guimarães (falecido), que possui excelentes trabalhos sobre a Guerra dos Emboabas, quando afirma que Emboabas e Paulistas viviam em locais separados. Poderíamos raciocinar da seguinte forma: os Emboabas, que conseqüentemente chegaram depois dos Paulistas, mais precisamente depois da descoberta do ouro em 1704, construíram moradas nas proximidades da Igreja das Mercês (centro da cidade de São João del Rei). Os Paulistas, como já tinham formado um núcleo habitacional no Porto Real, desde a chegada de Tomé Portes com seus parentes e amigos, voltaram a Matosinhos e se fortificaram. A respeito, José Alvares de Oliveira escreveu:

“...Cuidaram logo os Emboabas de formarem Arraial e fazerem Ranchos e ao mesmo tempo eregiram sua Capela [primeira Igreja de Nossa Senhora do Pilar]...E os Paulistas se arrancharam por fora, buscando a vizinhança dos matos e levantaram suas moradas com espaçosas varandas.” (Relatos Sertanistas, página 101).

            Só poderia ser fora da região aurífera das Mercês), ou seja, em Matosinhos.

 

- O BAIRRO DE MATOSINHOS NA INCONFIDÊNCIA MINEIRA

            Matosinhos também teve participação na Inconfidência Mineira, tanto é que o Desembargador José Pedro Machado Coelho Torres e o Ouvidor Marcelino Pereira Cleto ali estiveram a mando do Vice-Rei Luís de Vasconcelos e Souza (1), inquirindo um dia inteiro pessoas suspeitas com o levante.

            Num dos casos, um pardo de nome Manoel da Costa Capanema, sapateiro, foi preso por insultar o jovem português de 25 anos, de nome Manuel Moreira, que morava com uma parda aforriada de 40 anos de idade e de nome Josefa Teixeira. O sapateiro, na ânsia de tomar cachaça na taverna do jovem Manuel Moreira, instalada por ocasião da festa do Divino Espirito Santo, na Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, não obteve sucesso, já que a mesma encontrava-se fechada. Aos brados e murros, o sapateiro, que já se encontrava alcoolizado, começou a insultar o dono da taverna dizendo: "estes branquinhos do Reino que nos querem tomar nossas terras, cedo os haveremos de botar fora dela".  O sapateiro foi denunciado pelos que presenciaram o fato, entre eles o escrivão Antônio da Costa Braga e o Capitão Bernardo José Gomes da Silva Flores. Sendo inquirido pelo Desembargador e Ouvidor, foi preso em 22/09/1790.  Em 22/01/1791, foi conduzido para o Rio de Janeiro, juntamente com José Martins Borges e o Alfaiate Vitoriano Veloso, morador no Bichinho, próximo à Cidade de Tiradentes.  Finalmente, foi absolvido, depois de mais de dois anos de prisão.

            Também o promotor e o Desembargador queriam saber do Senhor Joaquim Pedro de Souza Câmara, moço fidalgo da casa de sua majestade e Sargento Mor da Cavalaria de Auxiliares da Comarca do Rio das Mortes, nascido em 1729 na Vila Viçosa, em Portugal e morador em Matosinhos, onde faleceu solteiro em 08/04/1798, deixando uma filha de nome Inácia Xavier Caetana de Aragão, se era verdade que o mesmo disse para o Coronel Francisco Antônio de Oliveira Lopes (2), inconfidente morador na Fazenda da Ponta do Morro, próximo à cidade de Prados e pai adotivo do famosíssimo Barão da Ponta do Morro (3), se era verdade que ele tinha recebido uma carta de sua prima, freira Joana de Menezes e Valadares, moradora em Portugal, alertando-lhe sobre um levante que haveria de acontecer nestas Minas Gerais (4).  Os termos que suscitaram dúvidas na referida carta de 18/06/1787, ou seja: praticamente há dois anos antes da prisão de Tiradentes, que foi em 10/05/1789, data marcante do início da repressão portuguesa aos inconfidentes, são os seguintes:

“...e se Vossa Senhoria continuar no seu silêncio, porei termo à minha escrita, mas não aos desejos de que Vossa Senhoria mude de resolução a respeito da esquecida pátria”.

                “...Vossa Senhoria ainda que aí está bem, aqui está melhor; e suponhamos que se introduz o espírito de vertigem nos ânimos desses naturais, e que tumultuam; neste caso parece mais arriscado é o partido da honra, que Vossa Senhoria infalivelmente havia de seguir, e o melhor é evitar estes apertos e vir sem eles à presença da adorada soberana [Dª Maria I] e livrar-se de um governo subalterno que às vezes degenera em despotismo.”

            O Senhor Joaquim Pedro de Souza desmentiu o Inconfidente, pai adotivo do Barão da Ponta do Morro, dizendo que a carta apenas o chamava de volta a Portugal, já que era muito mais seguro viver em seu país ao lado de sua Majestade a Rainha e toda sua dinastia (5), conforme manifestou sua prima.  A carta foi encaminhada ao Vice-Rei Visconde de Barbacena e nada aconteceu ao Senhor Joaquim Pedro de Souza Câmara.

            Acredito que nós mineiros aprendemos com as diversas prisões dos inconfidentes, e, hoje, somos tidos como homens calados. São aqueles velhos ditados: "mineiro trabalha em silêncio" e "gato escaldado tem medo de Água fria". Nosso próprio grande mártir e conterrâneo Joaquim José da Silva Xavier (6) foi severamente punido por propagar largamente o movimento e ser um dos poucos inconfidentes que não possuía grandes riquesas.

            O terceiro delator dos inconfidentes, Coronel Inácio Correia Pamplona, foi Imperador da Festa do Divino Espírito Santo de Matosinhos no ano de 1810, conforme mostra a cópia do recibo a seguir:

                RECIBO

Recebi do Sr. Reverendo Pe. Inácio Correia Pamplona, a quantia de cem mil reis que me deu por ordem do Sr. seu pai o Senhor Coronel Inácio Correia Pamplona, cuja quantia é a mesma, que o dito Sr. por meteu dar para a festa que fizemos do Espírito Santo em Mattosinhos em ano de 1810, quando o Sr. Coronel foi imperador e eu Juiz,  por verdade e faço o presente.

                São João, 13 de junho de 1810  -  José Francisco Lopes

São 100$000 reis  (museu regional de São João del Rei)

            O coronel Pamplona tinha chácara em Matosinhos e residência fixa em Lagoa Dourada (MG), de onde partiam suas diversas correspondências para a corte portuguesa no Brasil. De lá partiu a celebre carta ao Visconde de Barbacena, datada de 20/04/1789, mas que na realidade somente chegou nas mãos do Governador Visconde de Barbacena em 05/05/1789, passada pelo poderoso Carlos José da Silva, citado neste livro no capítulo “Personalidades Históricas do Bairro de Matosinhos”, do qual Pamplona era cumpadre. Eis a carta na integra:

Mendanha 20 de abril de 1789

Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Visconde

É fatal a minha consternação.  Tomara achar uma justa idéia que bem pudesse mostrar a Vossa Excelência o importante peso desta tão árdua, como interessante ação. Ela me faz conspirar para imediatamente representar a Vossa Excelência o caso tão horroroso para as atendíveis circunstâncias tão delicadas, em ofensa ao  sagrado  respeito, e se o  insulto se comprova, aonde está o juramento destes deliquentes, a fé de leal vassalo e a promessa de darem até a última gota de sangue?

                Esta tão relevante ofensa, Excelentíssimo Senhor, faz ódio até às nações mais bárbaras.

                Todos devemos pensar que Vossa Excelência é o braço em quem a nossa soberana descansa nesta Capitania, a quem compete exatissimamente o rigoroso exame da origem e da fonte donde tudo nasce.

                Eis aqui as provas: Que no dia 29 de março fui convidado pelo Reverendo Vigário Carlos Correia de Toledo, para ir a Semana Santa à dita Vila; e fui à procissão dos Passos, onde o dito Vigário me disse em conversa que se tratava de um levante, havendo leis, o General deposto, estando falado o Regimento, parte dele; no Rio, um Alferes fazendo séqüito; e o Ouvidor que acabou, Gonzaga metido nisto; e que todos os devedores que devessem à Fazenda Real seriam perdoados. E como era dia de sermão e de noite fomos visitar as igrejas, não deu tempo para mais; no outro dia de madrugada vim-me embora com a promessa de tornar, e para isso deixei logo o meu vestido.

                Sucedeu logo vir um homem por nome Manuel Pereira Chaves e comprar-me um pouco de gado e potros, que conduziu para o Rio; e chamando-me de parte, disse-me que sentia não poder vir a Vila Rica para dar parte ao Coronel Afonso Dias (7) do que lhe haviam contado nas Vilas de São João e São José: que havia levante nas Minas, e que se haviam conluiado todos os cabeças poderosos a este fim; que se achava um  a convocar séqüito; e como se dizia que o levante era dos poderosos, ele perguntara se eu estava metido nisso; que lhe responderam que eu não era metido nisso porque era amigo e compadre do Coronel Carlos José e que logo lho havia de passar; que o Senhor Vice-Rei já sabia tudo.

                Eu turbado deste e já do dito acima, não tardaram muitos instantes que logo  não chegasse a este sítio um padre pedindo suas esmolas e lhe perguntei: Irmão, tem tirado muito? Respondeu-me que tudo estava perdido e agora de novo pior, porque V. Excelência queria botar a derrama, sendo cada um negro a 8 oitavas: e que o povo dizia ia haver levante e viverem em suas liberdades. O dito deste logo me fez mossa, porque este gira a Capitania; e para maior desordem este sussurro.

                Proximamente chega a este sito o Capitão João Dias da Mota que passava a falar a André Esteves de seus particulares; e querendo deixar passar a força do sol, se apeou; e neste intervalo  lhe perguntei se havia notícia que tivesse chegado a nau de guerra; respondeu que não, só sim havia passado para o Rio um furriel com uma portaria do Ten.Cel. Francisco Antonio Rabelo para se lhe assistir com o necessário que ele tudo satisfaria; e que, de Vila Rica, passara um padre (8) que ia para a borda do Campo, que largamente falava no levante e que dormira no Rancho das Lavrinhas do Lourenço, que também este do Rancho assim o publicava.

                Vendo eu esta fatal desordem tomei a firme resolução de não ir ter a Semana Santa na Vila como havia prometido. Escrevi ao Vigário, que por conta das minhas enfermidades, me dispensasse; e perguntando eu ao mulato: que lhe disse o vigário? (porque me não respondera a minha carta), disse que a recebera e que se pusera a passear, e a bater com a carta na cabeça, e que dissera ao mulato: Se ti queres ir, em cima daquela mesa está o vestido; leva-o, que a doença de teu  senhor é de mentira.

                É o que posso dar parte a Vossa Excelência para por as providências que a sua sábia compreensão sabe, a benefício da nossa soberana e do bem público: e Deus guarde a Vossa Excelência. Mendanha, aos 20 de Abril de 1789.

Inácio Correia Pamplona

Mestre de Campo Regente

TERMO DE DECLARAÇÃO, RATIFICAÇÃO E JURAMENTO PRESTADO PELO MESTRE DE CAMPO INÁCIO CORREIA PAMPLONA NA INQUISIÇÃO DA INCONFIDÊNCIA MINEIRA

                Aos 30/05/1789, no Palácio desta Capital de Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto, residência do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Visconde de Barbacena, Governador e Capitão General desta Capitania, onde foi vindo por ordem do mesmo Senhor o Doutor Desembargador Pedro José Araújo de Saldanha do Desembargo de sua Majestade Fidelíssima, que Deus guarde, Ouvidor Geral e Corregedor desta Comarca, comigo o Bacharel José Caetano César Manitti, Ouvidor Geral e Corregedor da do Sabará, Escrivão nomeado pelo dito Excelentíssimo Senhor pra esta diligência, ali compareceu o Mestre de Campo Inácio Correia Pamplona, perante quem foi por mim lida uma carta e representação que o mesmo tinha feito ao dito Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor, que também presente se achava, toda ela escrita em uma folha de papel e datada do dia 20 de Abril do corrente ano, em que lhe denunciava o plano de uma sedição levantamento que temerariamente pretendiam concitar nesta Capitania varias pessoas da primeira graduação e hierarquia dela, declarando-lhe seus nomes e individuando todos os fatos respectivos de que tivera notícia, cuja carta me fora entregue neste mesmo ato e para o referido fim, pelo dito Excelentíssimo Senhor; e depois de assim lida na presença do mencionado Mestre de Campo, o sobredito Ministro Doutor Desembargador lhe deferiu o juramento  dos Santos Evangelhos em um livro deles em que pôs sua mão direita sob cargo do qual lhe encarregou que em boa e sã consciência declarasse e jurasse ele, dito Mestre de Campo Inácio Correia Pamplona, se tinha com efeito escrito e assinado de seu próprio punho a mencionada carta e denúncia que por mim, Escrivão, lhe tinha sido lida e mostrada; e se  eram verdadeiros todos e cada um dos fatos nela indicados; e se além destes ainda tinha que delatar alguns outros que lhe houvessem esquecidos, ou de que posteriormente à sobredita delatação tivesse notícia; e finalmente se aprovava e de novo ratificava quanto naquela representação delatória havia expedido e circunstanciado; e aceito pelo mesmo Mestre de Campo Pamplona o dito juramento, debaixo dele declarou novamente, protestou e ratificou que a referida carta e denúncia, que eu Escrivão nomeado lhe acabava de ler e mostrado tinha, datada do dia vinte de abril do corrente ano, era identicamente a própria que ele, dito Pamplona, tinha dirigido ao Excelentíssimo Senhor Visconde de Barbacena, atual Governador e Capitão General desta Capitania, que presente se achava na maneira que dito fica; que a mesma era toda escrita e assinada pelo seu próprio punho; que tudo quanto nela relatava era pura verdade expressada da mesma sorte que o sabia e tinha vindo à sua notícia; cuja denúncia fizera unicamente por zelo do real serviço como bom vassalo de sua Majestade Fidelíssima, e pela fidelidade, que sabia, estava obrigado a guardar por todos os direitos à sua Soberana e Senhora natural; e que, além do que na referida delatação havia fiel e verdadeiramente recenseado, acresciam mais para referir e declarar os fatos seguintes: Que pernoitando o Vigário da Igreja de São José daquela Comarca do Rio das Mortes, Carlos Correia de Toledo, em casa dele dito Mestre de Campo, na noite do dia vinte do mencionado mês de abril (1), sucedendo ir logo pela manhã cedo visitar o dito Vigário ao seu quarto, o achara já fora deste passeando e por extremo aflito, sobressaltado e inquieto, por cujo motivo, perguntando-lhe a origem da conhecida perturbação em que o via, lhe respondeu este;  que pela meia noite  antecedente havia recebido a carta que lhe apresentava, a qual ele declarante Pamplona leu e viu ser de aviso, participando-se nela o dito Vigário que, na Cidade do Rio de Janeiro, se achavam presos o  Alferes de Cavalaria destas Minas Joaquim José da Silva, por alcunha – o Tiradentes – e o Coronel de Auxiliares Joaquim Silvério dos Reis; que em  tais circunstâncias se acautelassem; mas que em todo caso cumpria antes morrer com honra; e quem não era capaz para as empresas, se não devia meter nelas – e não obstante que ele Pamplona nem conheceu a letra da dita carta, nem esta vinha assinada; contudo se persuade que a mesma viera dirigida de casa do Coronel Francisco Antonio de Oliveira Lopes, e que era sem a menor hesitação cópia de outra original, do que tudo ele Mestre de Campo avisara logo no dia vinte e um do mesmo mês a Sua Excelência, como se realizava de outra carta sua também, que o dito Excelentíssimo Senhor neste ato apresentou e que ele Pamplona, reconheceu pela própria de que faz menção;  e que sendo tão grande a perturbação e indecisão em que flutuava o referido Vigário, pondo-se este a escrever para Carijós, para onde viera destinado a fazer jornada, depois de ter já escrito e fechado a carta, se recordou lhe faltava incluir nela uma procuração para um batismo a que ia assistir; e rompendo aquele sobrescrito, com inquietação e confusão em que estava, deixou, quando se retirou, ambos sobre a mesa em que escrevera; isto é, tanto o da carta do aviso já memorada e que também apresentou a Sua Excelência, o qual se achava escrito por letra visivelmente contra-feita, e diz: Ao  Senhor Vigário Reverendo Carlos Correia de Toledo, Guarde Deus, São José; como o outro igualmente exibido e que cobria a carta para Carijós e dizia: Ao Senhor João  da Silveira Fernandes, meu Amigo e Senhor, Guarde Deus muitos anos, na Estalagem dos Carijós, à mercê, que importa a brevidade da entrega.

                Também declara mais ele, dito Mestre de Campo, que vindo logo posteriormente para esta Vila Rica, transitando pelo Arraial do Ouro Branco lhe contara o Capelão do mesmo que, no sábado antecedente pelas quatro horas da tarde pouco mais ou menos, passara por ali um Alferes dos Pardos por nome Vitoriano (9), residente no Bichinho, muito bem montado e com pressa; e perguntando-lhe o dito Capelão para onde se dirigia com tanta celebridade, lhe respondera o dito Alferes que ia a cidade de Mariana com cartas, ou recomendações do Coronel Francisco Antonio de Oliveira Lopes para despachar ou procurar naquela cidade uns papeis para um casamento; e que voltando o mesmo Alferes no domingo logo de manhã cedo, ele dito Capelão se admirara de tanta brevidade, e perguntando-lhe se havia concluído o seu negócio, lhe tornara que o tinham encontrado os soldados no caminho, e lhe abriram e lhe tomaram os papeis; e que por este motivo voltava já a avisar o dito Coronel, a quem reputava àquela hora preso. Mais se lembra finalmente ele declarante, dito Pamplona, que quando aquele Vigário de São José lhe falara sobre o recontado levante e deposição do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor General, como expressado tinha na sua carta, acrescentara que os outros não estavam por isto, antes haviam concordado e assentado que o mesmo Excelentíssimo Senhor deveria ser, nas críticas e propostas circunstâncias precisamente decapitado; o que tudo referido era fiel e verdadeiramente quanto de mais se lhe oferecia declarar e acrescentar ao já denunciado, debaixo do religioso vínculo do juramento que já tomado tinha; e de como assim o disse, protestou e ratificou, fiz este termo de declaração, ratificação e juramento que o mesmo dito Mestre de Campo Inácio Correia Pamplona assinou na presença do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Visconde de Barbacena, Governador e Capitão General desta Capitania, que também este rubricou, com o dito Doutor Desembargador Pedro José Araújo de Saldanha, Ouvidor Geral e Corregedor desta Comarca; e eu o Bacharel José Caetano César Manitti, Ouvidor e Corregedor da do Sabará, Escrivão nomeado pelo dito Excelentíssimo Senhor para esta diligência, o escrevi e assinei, José Caetano César Manitti, Pedro José Araújo de Saldanha, Inácio Correia Pamplona, Mestre de Campo Regente.

            Prezados leitores, praticamente todos os portugues suspeitos de participarem do movimento da Inconfidência Mineira, como inconfidente, foram perdoados. Entre eles o Coronel Pamplona.

__________________________________________________

(1) D. Maria I, desde a morte do seu pai, o Rei D. José I, em fevereiro de 1777 até o começo do ano de 1792, quando por motivo de moléstia mental, foi substituída nos despachos por seu filho D. João. Era o Vice-Rei Luís de Vasconcelos e Sousa (1779/1790), que tomou as primeiras providencias relativas a prisão e ao julgamento dos conjurados. Substituiu-lhe D. José Luís de Castro, Conde de Resende (1790/1801). Fez executar o Acórdão da Alçada que condenou à morte o Alferes Joaquim José da Silva Xavier e ao degredo vários dos Inconfidentes.

(2) Francisco Antônio de Oliveira Lopes, Coronel da Cavalaria Auxiliar de São João del Rei, nasceu em 1750 na Borda do Campo, região de Barbacena. Morou na monumental Fazenda da Ponta do Morro, de propriedade de sua esposa D. Hypólita Jacinta Teixeira de Mello.  Entrou para a Inconfidência Mineira a convite de Luiz Vaz de Toledo, irmão do Padre Toledo.

(3) Antônio Francisco Teixeira Coelho, Barão da Ponta do Morro, filho legítimo do Tenente português Antônio José Dias Coelho e Maria Inácia Policena da Silveira Buenos, irmã solteira da grande heroína Barbara Heliodora, nascido em 1786, portanto há três anos antes de eclodir a Conjuração Mineira e falecido em 07/03/1851. Foi criado pelo Inconfidente Francisco Antônio de Oliveira Lopes e sua esposa, D. Hypólita Teixeira, que o batizou na Matriz de Prados em 03/01/1787. Mesmo com os sequestros dos bens da Fazenda da Ponta do Morro, o Barão se transformou num dos homens mais ricos da região do Rio das Mortes, graças a cobertura e herança que seu pai lhe deixou, bem como D. Hypólita, que chegou a oferecer à rainha um cacho de banana todo de ouro, para livrar seu marido da prisão, o que não aconteceu.

(4) Realmente o nome "Inconfidência Mineira" foi muito bem escolhido, já que até a população de Portugal, muito antes do início do movimento, ficou sabendo do levante que haveria de acontecer aqui em Minas Gerais. Os participantes não souberam fazer confidências da trama. José de Lacerda e Almeida, paulista matriculado em Coimbra em 1772, denunciou a Melo e Castro, em setembro de 1786, que Antônio Pires da Silva Pontes, mineiro, disse que sua terra logo se tornaria um grande reino. Dessa forma dá para notar que, há dois anos e meio antes do movimento eclodir, os meios mais informados já sabiam das intenções daqueles que não souberam guardar confidências. Por essa razão, foram chamados de Inconfidentes. No meu entender, a diferenciação entre a denominação "Inconfidência Mineira" e "Conjuração Mineira" é que a primeira existiu numa fase anterior a descoberta do movimento e a segunda a partir da descoberta, onde os principais participantes foram denominados de conjurados.

(5) Em Portugal, a linha da Dinastia dos Alcântara Bragança é outra, de forma que D. Pedro I lá era D. Pedro IV. 

O maior ídolo dos portugueses de todos os tempos, sem dúvida, foi o Marquês de Pombal, homem de muita criatividade, que acordou Portugal para a indústria e a manufatura, incluindo suas Colônias. Não é à toa que lhe homenagearam com o maior e mais bonito monumento na principal Avenida de Lisboa.

 (6) Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, nasceu na Fazenda do Pombal (Ritápolis), na época pertencente a S. João del Rei, sem data precisa.  Era o mais velho entre dois irmãos, onde Domingos era padre, e possuía também duas irmãs de nome Maria Victoria e Eufrásia Maria. Depois de andar pelos sertões, como extrator de dentes e tomar conta do caminho da Mantiqueira (de Barroso à Barbacena), onde muitos assaltos com mortes ocorriam, entrou para a tropa de Cavalaria, no cargo de furriel (Subtenente). Muito corajoso, foi o porta-voz dos inconfidentes, já que também estava insatisfeito por não conseguir promoção. Dos onze inconfidentes condenados à forca, somente ele foi executado em 21/04/1792, antes de completar 46 anos.  Morreu solteiro e deixou uma filha de nome Joaquina, do romance que teve com Antônia Maria do Espirito Santo, em Vila Rica.  Possuía cultura razoável para aquela época, já que dispunha da Constituição Francesa e do Dicionário da língua francesa. Os dez perdoados do enforcamento a troco de degredo para as Colônias portuguesas da África foram: Cel. Freire de Andrade, Cel. Dr. Alvarenga Peixoto, Médico Dr. Domingos Vidal Barbosa, Cap. José de Resende Costa (pai), Dr. Resende Costa (filho), S. M. Luís Vaz de Toledo, Cel. Francisco A. de Oliveira Lopes, Dr. José Alvares Maciel, Amaral Gurgel e o Ten. Cel. Domingos de Abreu Vieira.

 Segundo o historiador inglês Maxwell, na época da Inconfidência até a primeira década de 1800, São João del Rei abastecia tanto o interior como os grandes centros com milho, feijão, trigo, queijo, banha, açúcar, algodão e cachaça. Já São José del Rei, hoje cidade de Tiradentes produzia muito algodão. Tudo isso após o ciclo do ouro.  A partir de 1800, São João começou a se desenvolver tanto, por causa do comércio, que foi responsável pelo crescimento da população da Comarca do Rio das Mortes, a qual pulou de 82.781 habitantes em 1776, para 213.617 em 1821, suplantando a população da capital Vila Rica.

(7) Coronel jAfonso Dias Pereira, tesoureiro Geral da Real Fazenda da capitania de Minas Gerais.

(8) Padre Manuel Rodrigues da Costa.

(9) Vitoriano Gonçalves Veloso, alfaiate, alferes de auxiliares, morador no Bichinho (hoje e antes distrito da cidade de Tiradentes), e comprade do inconfidente Francisco Antônio de Oliveira Lopes, proprietário da celebre Fazenda da Ponta do Morro.

 

 

- BAIRRO DE MATOSINHOS: ORIGEM DO NOME, DELIMITAÇÕES E FORMAÇÃO DO POVOADO

            Matosinhos, bairro de São João del Rei, Minas Gerais, nome oriundo da denominação da Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, cuja construção teve iniciou em 1771 e término em 1774. Foi lamentavelmente demolida em 1970, após deixarem o templo ir se acabando na década de 1960. Antes da construção da igreja, o local era conhecido como Vargem do Porto Real da Passagem ou Vargem da Água Limpa. O primeiro, por ser passagem de pessoas e viaturas controladas pelo reino ou pelos reinois (1) e o segundo por ser banhado pelo Ribeirão da Água Limpa (2).

            De topografia predominante plana, clima ameno, com terras cultiváveis e água em abundância, o local chamou a atenção daqueles que por ali passavam.

Emanuel Pohl, Burton e Rugendas se referem ao bairro de Matosinhos, dizendo o primeiro que:

No agradável Arraial de Matosinhos... os habitantes abastados de São João del Rei tem muitas e belas casas de campo com jardins, e Burton acrescentando ser o Arraial de Matosinhos, um lindo subúrbio.  Já Rugendas que pintou o Arraial de Matosinhos entre 1821 e 1825 (a imagem mais antiga que se conhece de Matosinhos), onde contavam cerca de 35???? chácaras, profetiza dizendo que sua bela situação e a vizinhança do Rio das Mortes, já navegável por algumas canoas, permitem prever para essa aldeia um futuro mais próspero que o das cidades vizinhas”.

            Nelson de Sena no seu Anuário Histórico Cronográfico de 1909 escreveu:

 "Bairro de Mattozinhos, constictuido num planalto entre a confluência do Ribeirão Água Limpa, com o Rio das Mortes, em forma de um triângulo, cuja base se assenta  sobre a fralda do outeiro do Lombão (3).  Sua área deve ser de aproximadamente dois milhões de metros quadrados. Mattozinhos oferece proporções maravilhosas para aumentar no triplo, com vantagens inquestionáveis, o actual núcleo urbano de São João del Rei".

            Roberto Capri, organizador e editor do livro "Minas Gerais e seus Municípios", escrito em 1916, fala o seguinte sobre Matosinhos:

- "Mattozinhos constitue o bairro mais aprazível da cidade, banhado de um lado pelo riacho Água Limpa e do outro pelo caudaloso Rio das Mortes.  Neste poético Arraial, outr'ora theatro de grandes luctas e de sangue entre paulistas e emboabas que a sede do ouro attrahia a estas paragens, perpassa hoje um sopro de vida nova e alegria e de amor.  Que linda garça campeia entre as verduras das chácaras e a romântica cappela do Bom Jesus do Mattozinhos, para onde afluem romeiros de todas as partes por ocasião das  festas do Espírito Santo, que ali se celebram com grande e solenne magnificência”

            O bairro de Matosinhos delimita-se com o bairro das Fábricas, na confluência do Córrego da Água Limpa com o Córrego do Lenheiro até na junção destes com o Rio das Mortes, próximo ao Estádio do América. Daí até nas proximidades da Ponte do Porto, com a Colônia do Marçal e da Ponte do Porto a montante (4) do Rio das Mortes, com a cidade de Santa Cruz de Minas. À esquerda do Córrego da Água Limpa, ao pé do morro, delimita-se com o bairro Jardim Central, também conhecido como Caieira.  Sua base geométrica que se assentava no bairro Pio XII, conforme mencionou Nelson de Sena em 1909, hoje se expandiu e se assenta na BR-265, que liga São João del Rei a Tiradentes.

            Sua população está estimada no ano de 2000 em aproximadamente 30 mil habitantes e é mesclada por todas as raças e várias religiões, com predominância para a Católica Apostólica Romana.

            Seus habitantes são muito trabalhadores. Destacam-se os operários de fábricas de tecidos, marceneiros, carpinteiros, pedreiros, metalúrgicos, comerciantes e também profissionais liberais de diversas especialidades.

            Seus habitantes divertem-se de diversas formas, tais como, em barzinhos, barraquinhas de largo, queima do Judas, pagodes (5), jogo de bocha (6), jogo da malha (7),futebol, bailes, blocos carnavalescos, possuindo inclusive a Escola de Samba Girassol que fundada em l983, já conquistou dois títulos máximos do carnaval de São João del Rei.

            “O Grande Matosinhos” é subdividido em diversas vilas e pequenos núcleos habitacionais, tais como; Vila Santa Terezinha, Santo Antônio, Nossa Senhora de Fátima, Linha Velha, Jardim Paulo Campos, Pio XII, Bom Pastor, Lombão, Nª Sª da Paz e outros ainda em formação.

 (1) Pessoas ligadas ao Rei ou a Coroa Portuguesa.

(2) Córrego que banha o bairro a partir da ponte da BR-265 e desemboca no Rio das Mortes.

(3) Atual bairro Pio XII e bairro do Lombão, assim chamado pelo fato do bairro estar localizado num planalto em forma de um lombo.

(4)  Em direção à nascente do rio.

(5) Batuque ou roda de samba cantarolado em barzinhos ou nas esquinas.

(6) Jogo trazido pelos italianos, no qual dois jogadores ou dois pares jogam com quatro bolas de madeira cada time, no intuito de que essas se aproxime de uma bolinha lançada no fundo de um campo de terra delimitado, medindo aproximadamente 2 x 25 metros.

(7) Jogado num campo semelhante ao jogo da bocha, porém com discos de ferro, no intuito de derrubar três toquinhos que ficam do outro lado do campo.


- LIGEIRA DESCRICAO DA CIDADE DE MATOSINHOS DE PORTUGAL
            O historiador português Rui Melo, in "Roteiro de Matosinhos" da C.M.Matosinhos, descreve o seguinte sobre nossa co-irmã cidade de Matosinhos de Portugal, baseado na edição de 21/5/1997 do Jornal de Notícias. Não mexemos na morfologia das palavras escritas em linguagem portuguesa de Portugal. Assim respeitamos sua originalidade:

Um breve cartão de identidade

            Matosinhos é um importante concelho da Região Norte, estando inserido na Área Metropolitana do Porto (A.M.P.), cuja população é de 1,15 milhões de pessoas. Matosinhos ocupa uma área de 62,3 km2, confronta a sul com a cidade do Porto, a norte com Vila do Conde, a este com a Maia e a oeste com o Oceano Atlântico.

            Admnistrativamente, o concelho está dividido em dez freguesias, sendo a cidade formada pelas de Matosinhos e Leça da Palmeira, com cerca de 50.000 habitantes. Em termos populacionais é o terceiro concelho da A.M.P., com 160.000 habitantes, tendo crescido 12,2% nos últimos dez anos. A densidade populacional é de 2568 habitantes/km2.

            A indústria transformadora tem um papel preponderante no concelho, absorvendo 76% dos 55% da população activa empregue no secundário. Ela é igualmente importante na A.M.P. (Área Metropolitana do Porto), representando em relação ao conjunto do país 18,7% do emprego, 19,6% do valor bruto da produção, 11,6% da formação bruta do capital fixo e 14,8% do número de estabelecimentos (valores de 1984).

            Matosinhos é um concelho com uma estrutura industrial que assenta fundamentalmente nas pequenas e médias empresas. Das 1065 empresas existentes, apenas 70 têm mais de 100 trabalhadores e somente 7 têm mais de mil.

            O sector terciário é um sector em expansão no concelho,existindo 318 estabelecimentos de comércio por grosso, 1016 de comércio a retalho e 612 estabelecimentos de serviços.

            Foram efectuados recentemente grandes investimentos nesta área: o Hipermercado Continente, que foi a primeira manifestação do país de uma tendência de concentração de distribuição comercial; o Parque de Exposições do Norte - EXPONOR, que é a maior área de exposições em Portugal; o terminal TIR, que registou em 1991 um movimento de 57 mil camiões e 487.000 toneladas de carga importada; as oficinas da C.P. - Caminhos de Ferro Portugueses, as quais prestam assistência ao tráfego Ferroviário do Norte do País.

            A agricultura tem um peso diminuto, a área regada é de 1.343 ha e o número de agricultores cerca de 250.

            Na pesca estão a laborar cerca de 300 embarcações, com um volume de pescado na ordem das 60 mil toneladas.

            Em Matosinhos convergem as grandes infra-estruturas nacionais de transporte, que em parte determinam a sua base económica: tem o segundo maior Porto Comercial do país, com um volume de cargas e descargas na ordem dos 6 milhões de toneladas/ano; o Aeroporto do Porto, com um tráfego de 1.461.040 passageiros e 19 mil toneladas/ano, registados em 1991; a nova rede viária, em construção, o lP4 - itinerário principal de ligação do litoral ao interior e à Galiza e o lCí, itinerário complementar, irão permitir um maior desenvolvimento do concelho e da região.

            No que respeita às infra-estruturas de saneamento básico, cerca de 99% da população é servida por rede pública de abastecimento de água. A percentagem no que respeita à rede pública de esgotos é bastante inferior, constituindo um dos principais objectivos da Autarquia para este mandato.

            As cooperativas de habitação têm tido um papel muito importante na resolução do problema de habitação, contribuindo decisivamente para uma expansão do mercado livre a custos controlados. O Município tem-nas apoiado, cedendo-lhes terrenos e facilitando o processamento burocrático de licenciamento dos projectos. O facto de estarmos inseridos na região mais jovem da Europa Comunitária (26,2% da população tem menos de 14 anos e somente 8,9% tem mais de 65), aliada ao alargamento do grau de escolaridade, obrigou o Município a investir bastante em infra-estruturas de ensino, sendo a situação no ano lectivo de 1990/91 a seguinte: 49 Estabelecimentos de Ensino Oficial Grau Básico, com  9.237 alunos, 6          Preparatórios com 5.260 alunos, 9 estabelecimentos Secundários com 11.187 alunos e 5 Pré-escolares com 172 alunos.

                No que respeita a equipamentos desportivos e de lazer, existem: quatro piscinas municipais (uma de mar, duas aquecidas e uma inserida no Parque Público da Quinta da Conceição), dois circuitos de manutenção, courts de ténis e dois campos de mini-golf; na zona norte do concelho (praia de Angeiras) situa-se um parque de campismo.

            Para além deste equipamento municipal, existem também 16 campos de futebol, 8 pavilhões gimnodesportivos, seis ringues, um campo de tiro, um hipódromo, uma pista de karting e quatro clubes de vela. No concelho, de resto, existem 154 colectividades desportivas.

A animação cultural, para além das múltiplas actividades realizadas pela Câmara, é levada a cabo pelas 73 associações espalhadas pelas dez freguesias do concelho.

Freguesias do Concelho de Matosinhos

História

            Concelho moderno e em franco desenvolvimento, Matosinhos possui, não obstante, um longo e marcante passado. Os mais antigos vestígios da acção humana neste território - vários instrumentos líticos talhados, atribuidos ao Paleolítico - possuirão alguns milhares de anos e foram recolhidos em praias antigas e actuais, nomeadamente na Boa Nova. A fixação das gentes a estas terras ter-se-á iniciado há cerca de cinco mil anos, durante o Neolítico, tendo chegado até aos nossos dias ténues vestígios dos monumentos funerários dessa época: as antas. Em Antela, Perafita e S. Gens localizar-se-iam importantes núcleos megalíticos.

            O desenvolvimento económico, social e demográfico destas primeiras comunidades humanas foi significativo durante a Idade dos Metais, culminando, nos finais da Idade do Bronze, na erupção de um tipo de habitat proto-urbano de altitude associado a uma cultura de características muito próprias que perdurará durante toda a Idade do Ferro: a castreja. Ainda hoje são significativos os vestígios de castros existentes no concelho, destacando-se pela sua área e espólio já recolhido o de Guifões.

            A chegada dos romanos, há cerca de dois mil anos, provocará profundas alterações. A abertura de vias e a construção de pontes (como a de Guifões) fazem parte de uma política generalizada de desenvolvimento das comunicações e do comércio, associada à pax romana. O estuário do Leça e a zona de Lavra terão sido, neste contexto, os locais mais romanizados, bem atestados nesta última por vestígios de uma vila e e produção de garum.

            Paulatinamente as populações começam a abandonar os povoados fortificados de altitude (os castros), fixando-se nos vales e zonas costeiras, permitindo um maior desenvolvimento da agricultura. Assim, com a romanização, estavam lançadas as raízes do que caracterizaria, praticamente até aos nossos dias, este território. Nem as invasões bárbaras, nem os conturbados tempos que se seguiram até à Reconquista Cristã, alteraram esta predominância agrícola num povoamento mais ou menos disperso. De resto, durante a Idade Média, a grande fertilidade destes solos fez com que a- (na qual se integrava o actual Concelho de Matosinhos) tenha sido muito cobiçada e centro de grandes lutas e interesses senhoriais.

            Da Alta Idade Média chegaram até hoje os testemunhos da importância que a morte tinha para um cristianismo em crescente implantação e importância: as sepulturas escavadas na rocha de Montedouro (Perafita). Mas, monumento medieval por excelência é o românico-gótico Mosteiro de Leça do Balio que resultou, aliás, da ampliação de uma anterior edificação. Com referências escritas desde 1003, este poderoso mosteiro viria a ser a primitiva sede, em Portugal, dos Hospitalários. Um outro mosteiro, anterior à nacionalidade foi o de Bouças de que, na actualidade, nada resta. No entanto, foi ele que tez desenvolver todo um aglomerado populacional que encabeçaria a divisão admnistrativa do Julgado de Bouças, que está na base do actual Concelho de Matosinhos. Medievais serão também as pontes do Carro (Sta. Cruz do Bispo e Guifões) e de D. Goimil (Custóias) sobre o rio Leça. Dessa época medieval veio também uma considerável exploração salineira que, no entanto e paulatinamente entrou em decadência, desaparecendo definitivamente há cerca de 150 anos.

            Os séculos seguintes à Idade Média mais não foram do que um reforçar das tendências anteriores. Com Carta de Foral atribuida em 1514 por D. Manuel 1, e assumindo-se como importante centro produtor agro-pecuário e sede de ricas propriedades, Matosinhos torna-se num dos principais pólos abastecedores do Porto, numa altura em que as freguesias como Pamalde, Aldoar ou 5. João da Foz faziam ainda parte integrante do seu território.

            Ao nível das mentalidades, a crescente cristianização das massas, associada à longínqua lenda do aparecimento de uma escultura de Cristo no lugar do Espinheiro (local hoje assinalado com um padrão), cedo transformou Matosinhos em importante centro de religiosidade popular para veneração daquela imagem. Mas, também, em local onde o sagrado se interpenetrou fortemente com o profano, transformando a romaria ao Senhor de Matosinhos, numa das mais concorridas e festivas do Entre-Douro-e-Minho. Inicialmente depositada no Mosteiro de Bouças, a imagem foi transferida no século XVI para a igreja de Matosinhos. Por esta época seria já nítido um certo apagamento do lugar de Bouças em detrimento do núcleo de Matosinhos, apagamento que então, e a partir deste facto, se torna irreversível. A crescente importância do culto levará, dois séculos depois, a profundas transformações naquele templo que, atribuidas a Nicolau Nasoni, resultarão no seu aspecto actual. De resto, àquele famoso arquitecto italiano são atribuidas outras construções no concelho no século XVI II, nomeadamente edifícios e estruturas arquitectónicas nas quintas do Chantre (Leça do Balio) e do Bispo (Sta. Cruz do Bispo).

            Mas, o concelho é também fruto da sua abertura ao mar. Por ele chegam as embarcações que, desde há muito, aqui vêm comerciar. Por ele partiram muitos mareantes, citados na época dos Descobrimentos. Por ele chegavam, também, invasores e piratas que levaram as autoridades à edificação de importantes fortalezas, como o castelo de N.~ S.~ das Neves (Leça da Palmeira). Por ele veio, em 1832, o exército comandado por D. Pedro que, desembarcado em Arnosa- -Pamplido, implantou definitivamente o liberalismo em Portugal, derrubando o absolutismo. Por ele chegou, já muito recentemente, uma forte e característica comunidade piscatória. Ele provocou a fixação de novos habitantes desejosos da sua proximidade (com a oitocentista colónia inglesa de Leça da Palmeira) ou dos , que aqui se praticam desde a segunda metade do século XIX.

            A necessidade de um porto de abrigo, primeiro, e um arrojado projecto de desenvolvimento económico-port uá rio, depois, levou em finais do último século à construção do Porto de Leixões. Era o início de um profundo processo de transformações que não terminou ainda. Transformações particularmente nítidas em todo o desenvolvimento urbanístico e industrial da (agora) cidade de Matosinhos, onde a indústria conserveira desempenhou verdadeiro papel de líder, (algumas fábricas conserveiras aguardam, presentemente, a sua classificação como imóveis de interesse concelhio). Tendo crescido de 25 para 140 mil habitantes entre 1900 e 1981, Matosinhos é hoje um concelho de grandes projectos, apostando no futuro. Mas, não há desenvolvimento sem integração e sem uma efectiva relação da população com o meio que a rode ia. Tal passa, necessariamente, pela preservação de uma memória colectiva que identifique as pessoas com os lugares e com o seu passado.

Locais a Visitar

Exponor

Porto de Leixões

Obelisco da Memória

Casa Museu Abel Salazar

Estátua a Passos Manuel


Castro de Guifões

                Na margem esquerda do Rio Leça, no Monte Castêlo, localiza--se o Castro de Guifões. Este antiquíssimo povoado, seguramente com origem no primeiro milénio anterior à nossa era, objecto de breves intervençoes arqueológicas nos finais do século XIX e em meados deste, possui inúmeras estruturas enterradas entre várias linhas de muralhas. O espólio já recolhido se indicia, por um lado, uma origem remota adentro do "mundo castrejo", revela, por outro lado, uma longa perduração patente numa significativa influência romana que, ainda hoje, é patente em vestígios à superfície de tegulae (telhas) e cerâmicas (incluindo a luxuosa terra sigiliata), troços de calçadas, e até numa ponte sobre o Leça (a de Guifões), no sopé da elevação. Infelizmente esta ruiu à poucos anos durante uma cheia, no que foi uma das maiores perdas patrimoniais do concelho. Castro e ponte foram classificados imóveis de interesse público em 1971.


Mosteiro de Leça do Balio

                Apesar da referência mais antiga deste monumento datar de 1003, a sua fundação é certamente anterior. Rico de história e testemunha de muitos episódios da vida nacional, o mosteiro passou a funcionar como igreja matriz desde 1834, altura em que foram extintas as ordens religiosas. Na década de 40 do nosso século o monumento foi intervencionado pelos serviços dos "Monumentos Nacionais" que, retirando-lhe as excrecências de vários séculos, lhe devolveu a traça resultante das obras que sofreu no século XIV. O decreto que o instituiu como monumento nacional, em 1910, inclui uma lâmina sepulcral de bronze que fazia parte do túmulo do Prior Frei Estêvão Pimentel (séc. XVl), dignatário da Ordem de Malta. Merecem, igualmenter referência uma pia baptismal renascentista, vários mausoléus e túmulos. Próximo, localiza-se um cruzeiro em pedra ançã primorosamente lavrado, mandado fazer em 1514 pelo balio João Coelho ao admirável estatuário coimbrão Diogo Pires, "o moço".Foi classificado monumento nacional, igualmente em 1910.


Tanques Escavados na Rocha

                Ao longo da praia de Angeiras (Lavra) encontram-se quatro grupos de tanques abertos na rocha. No entanto, devido à sua proximidade ao mar, estas 22 cavidades estão quase sempre assoreadas. Atribuidas ao Baixo Império Romano (sécs. 11-1V d.C.), destinar-se-iam à fabricação de garum, produto resultante da maceração de determinadas espécies de peixe - caro aperitivo, muito do gosto romano. Contudo, e pelas suas dimensões, pouca profundidade e verticalidade das paredes internas, há quem defenda que serviria para salmoura. Este agrupamento de tanques insere-se, provavelmente, num conjunto de estruturas e construções mais complexas, nomeadamente uma vilae, de que há vestígios significativos.
Pela sua importância e raridade foram classificados monumento nacional em 1970.


Sepulturas Abertas na Rocha

                Na freguesia de Perafita, no lugar de Pampelido, encontra-se um grupo de sepulturas medievais escavadas na rocha. É possível que muitas outras existissem nas imediações, porém terão sido destruidas em virtude da extracção de pedra que aqui se fez para a construção do porto de Leixões. É de salientar a sepultura localizada no alto de um outeiro no Montedouro, de forma oval e com rebordo.
Estas sepulturas foram classificadas como imóveis de interesse concelho em 1974.


Igreja e Padrão do Bom Jesus

                A história da freguesia de Matosinhos entronca na do desaparecido Mosteiro de Bouças e na imagem do Bom Jesus que ali foi venerada durante séculos. No séc. XVI, contudo, face à rui na do mosteiro, foi a imagem transferida para a igreja de Matosinhos cuja construção, iniciada em 1542, se ficou a dever à Universidade de Coimbra a quem pertencia o padroado de Matosinhos, por concessão do rei D. João III. O aspecto actual deve-se a remodelações e acrescentos, do segundo quartel do séc. XVIII, atribuidos a Nasoni. Data, também, de então a opulenta talha dourada que ainda hoje é possível admirar. Da construção inicial resta metade do corpo do templo, bem assim como a capela-mor. Esta igreja, imóvel de interesse público desde 1982, possui três naves divididas por colunas de capitéis jónicos onde assenta uma cobertura em caixotões de madeira e sete altares. No adro, dois fontenários e seis capelas com diversas cenas dos Passos da Paixão enriquecem o conjunto. Ligado à lenda da aparição da imagem, refira-se o padrão erigido no lugar do Espinheiro, assinalando o local do aparecimento daquela escultura. Embora existam dúvidas quanto à data da sua construção é provável que esteja relacionadas com as obras de ampliação da igreja de Matosinhos no séc. XVIII. É monumento nacional desde 1977.


Forte de Leça

                Após a restauração da independência (1640), e face à necessidade de defesa das nossas costas dos ataques espanhóis e piratas, edificou-se uma série de fortalezas junto ao mar. Aqui, construiu-se o forte de N.S. das Neves (Leça da Palmeira) que, juntamente com o de S. João da Foz e o de S. Francisco Xavier (Castelo do Queijo), constitiuiam úma forte linha de defesa à região. Perdida a função militar, aí se instalou em 1844 a alfândega do Porto e, em 1899, a secretaria do porto de Leixões. Hoje é sede da Capitania daquele porto. Foi classificado imóvel de interesse público em 1961.

Quintas

                No séc. XVI e XVII foi marcante a passagem, por este concelho, do arquitecto Nicolau Nasoni, já então conceituado por obras realizadas na cidade do Porto. Aqui foi responsável por uma vasta obra, sa- lientanto-se a quinta do Chantre (Leça do Balio) e o renovar de alguns traços arquitectónicos na seiscentista quinta do Bispo (St. Cruz do Bispo), nomeadamente o portal principal, trilobado de cantaria, encimado pelas armas do bispo S. José Maria Fonseca e Evora que, em 1750, decidiu empreender reformas nesta imponente e tranquila estância de repouso. A quinta do Chantre foi a primitiva propriedade de António Godinho de Faria, matosinhense que adquiriu fortuna considerável no Brasil. Ainda hoje, além de casa solarenga, compõe-se de campos, bouças, minas de água... Embora não sendo obra de Nasoni, merece também referência a Quinta de Fafiães: um conjunto de edificaçôes composto por casa, capela e tanque, no lugar do Barreiro (Leça do Balio). Imóveis de rara beleza e valor, as quintas do Bispo e Fafiães foram classificadas como de interesse público em 1977, sendo também classificada, um ano depois, a quinta do Chantre.


Pontes Medievais

                São várias, no concelho, as pontes que, se não são medievais, revelam uma técnica construtiva e um gosto arquitectónico que mergulha as suas raízes naquela época. O estudo das pontes em Matosinhos, tão útil para uma melhor compreensão das vias, seu traçado e evolução, está ainda por fazer.
De qualquer forma e desde 1g71, já estão classificadas como imóveis de interesse público as pontes de D. Goimil (Custóias) e a do Carro (St. Cruz do Bispo e Guifões). São estruturas claramente medievais, ou de tradição medieval, sendo portanto erróneas as referências que as datam da época romana.


Igreja de Lavra

                Construída em 1721 para substituir outra mais antiga (citada por D. Rodrigo da Cunha, no Catálogo dos Bispos do Porto, em 1623 - Pág. 398). O risco é do mestre-pedreiro Domingos Pires de Matos (de Vilar do Pinheiro). Foi remodelada em 1926. Boa talha (1738,1750, 1755), azulejos e algumas imagens de interesse.


Igreja Matriz - Peratita

                De duas torres, construída no século XVII. Ostenta o Brasão do Bispo do Porto, D. Jerónimo de Venezes. Tem bastante obra de talha, na capela-mor (contrato de 6 de Novembro de 1759).


Homem da Maça

                Escultura grosseira, em granito, que se supõe ser vestígio romano.


Cruzeiro-Leça do Bailo

Em pedra de Ançã, assinado por Diogo Pires - o Moço - (1514).


Capela de Nossa Senhora da Hora

                Valioso retábulo joanino.


Capela de Santana

                A imagem de pedra policromada que se julga ser também obra de Diogo Pires.


Igreja - Senhora da Hora

                O retábulo-mor é barroco (primeiro período). Foi adaptado à actal igreja, tendo sido acrescentado na base. A parte central é posterior.


Igreja de São Mamede

                ???de níesta Boa talha, que consta ter vindo do desaparecido Convento de Monchique. O retábulo-mor é barroco (primeiro período). Os retábulos laterais são joaninos.


Actualidades regionais - 1995

            Musa inspiradora de poetas populares, Matosinhos é um misto de terra e de mar e de sol, de pesca e pescadores, de peixe de prata a bulir, e de conservas também, de banhos, docas e o porto de Leixões. De tradições e mudanças, de culturas aglutinadas e de gente romântica, fiel e abnegada. O Atlântico, esse Oceano sem fim, é a sua maior referéncia.

            Matosinhos é, porventura o mais constratado e variado concelho da região. Não possui um rosto, uma identidade, mas trés ou quatro: a extensão urbana do Douro ao Leça e além, a explosão industrial e o desenvolvimento das docas, devorando as bordaduras da terra; a cidade em transformação e as praias da gente que faz férias em casa.

            A oito quilómetros do Porto, Matosinhos é uma estação balnear que se apresenta também como cidade industrial (conservas, refinarias) e prolonga-se para Norte pelo porto de Leixões. A construção do porto de Leixões, com as suas infra-estruturas de base (acessos rodoviários e ferroviários e instalação de serviços) provocou profundas alterações na paisagem e nos costumes das populações habituadas a conviver com o seu rio, onde magotes de mulheres se concentravam lavando e conversando, ao mesmo tempo que os seus filhos brincavam no areal. Também os pescadores disfrutavam o peixe e os banhistas as águas límpidas deste local.

            Matosinhos viria a conhecer um grande desenvolvimento, comprovado não só pelo incremento populacional devido á mão-de-obra que o porto atraía, mas também à elevada concentração industrial que este favoreceu. Por outro lado, instalar-se-iam fábricas de conservas sendo alimentadas pelo porto de pesca paralelamente, refira-se, outras indústrias como a moagem, a tecelagem, a metalurgia e a refinaria foram surgindo.

            Este desenvolvimento industrial não se pode dissociar da existência do porto de Leixões, uma vez que este constituía um meio de importação de matérias-pnmas e de escoamento de produtos transformados.

            Desempenhou ainda um papel preponderante na mobilidade das populações que, a partir desta porta aberta sobre o Atlântico, demandavam o Brasil e as Colónias Ultramarinas.

            O foral de Matosinhos, testemunha a elevação do lugar a vila - só em 1984 a vila seria elevada à categoria de cidade - integrando as duas freguesias: As duas freguesias de Matosinhos e Leça da Palmeira, no concelho de Bouças, Distrito do Porto, são erectas em vila com a denominação de Vila de Matosinhos (...) A capital do concelho de Bouças, ora existente na vila do mesmo nome, é transferida para a freguesia de Matosinhos, elevada à categoria de vila.

            A chave do crescimento matosinhense é a relação directa com o Oceano, proximidade esta que sempre induziu a actividades piscatórias por exigencias alimentares regionais e agromarítimas por imposição das necessidades produtivas dos campos limítrofes. Depois, provocou a revolução social dos banhos e praias, que transformaria as póvoas marinheiras e pescadeiras e as aldeias de lavradores-sargaceiros em centros de veraneio.

            Matosinhos transformou-se então em estância balnear para o chique da burguesia portuense, fluxo este que, juntamente com o de emigrantes e com incremento de mercadorias forçaria a inovação essenciais às ligações entre o Porto e Matosinhos. Atracção balnear dos meados do século XIX, este paraíso de veraneio tinha, porém, destino marcado já que o crescimento da região (que desde o século XVII exigia um porto de abrigo alternativo do rio Douro) impôs, no final do século XIX, a construção do porto de Leixões.

            De resto, a personalidade do concelho é, em muito, subsidiária de um fenómeno progressivo e superdominador: o porto de Leixões. E a expansão das pescas e das docas operou a primeira industrialização (embora tardiamente) para transformar o pescado em conservas. E, penetrando profundamente nos terrenos da embocadura do Leça, alterou por completo a paisagem local urbana e os modos de nela viver.

            Com o porto surgiram actividades dele dependentes, incrementou-se o comércio e os transportes terrestres e ferroviários, desenvolveu-se a pesca para níveis que catapultaram a vila para lugar cimeiro na produção nacional e instalaram-se indústrias transformadoras do pescados. O porto de Leixões motivou, de resto, a primeira revolução urbana e económica de Matosinhos num processo que decorreu até aos nossos dias, em que tende a diluir-se na diversificação industrial e na expansão do concelho para o interior.

            Atravês das praias, dos banhos e das pescas, do porto e do comércio, o mar foi, não apenas cenário mas, sobretudo, matriz do progresso material e da identidade de Matosinhos.


Baseado in "Actualidades Regionais" (1995) da C.M.Matosinhos

ROMARIA DO SENHOR BOM JESUS DE MATOSINHOS DE PORTUGAL    

            Festa religiosa oficialmente criada em 3 de Maio de 1733, pelos fiéis católicos. Esta romaria tem como objectivo o culto e devoção à Imagem do Bom Jesus - Senhor de Matosinhos.

            A imagem foi esculpida pelo escultor Nicodemos, o bom fariseu convertido a discípulo de Jesus. Nicodemos esculpiu várias imagens de Cristo em 5 madeiros da Judeia. Quando perseguido por judeus e romanos, Nicodemos lançou ao mar as 5 imagens. Hoje essas imagens são adoradas em Matosinhos (Portugal), Berio (Síria), Luca (Itália), Burgos (Espanha) e Orense (Galiza/Espanha). Velhas histórias relatam que a imagem do Senhor de Matosinhos apareceu na Praia do Espinheiro (Matosinhos) em 3 de Maio de 1242 - o local ficou assinalado com o Senhor do Padrão. A imagem no entanto apareceu na praia sem um braço e apesar de várias tentativas para a corrigir nada foi conseguido. Anos mais tarde uma pobre mulher de pescador encontrou o braço em falta. Após isto, contam-se várias lendas e histórias de curas milagrosas que com o tempo deram à imagem fama primeiro em Matosinhos, depois Porto e progressivamente o norte de Portugal, Portugal continental e províncias ultramarinas. A cidade do Porto em especial pediu por várias vezes a imagem por causa de cheias e doenças.

A Imagem estava numa primeira fase instalada no mosteiro de Bouças (Matosinhos estava integrado em Bouças antigamente), mas com o declínio deste local, foi transferida para Matosinhos.

            Com o passar dos tempos, este evento passou a ser principalmente uma festa popular em vez de uma romaria religiosa fazendo cair um pouco no esquecimento as raízes. No entanto foi recentemente criada uma comissão de festas com o intuito de recuperar algumas dessas raízes sem no entanto acabar com a animação associada a esta festa matosinhense. A romaria passa no fundo a ter duas vertentes distintas: a religiosa e a popular.

            A vertente popular da festa realiza-se como habitualmente junto ao porto de mar ao fundo da Avenida D. Afonso Henriques, Luna Parque e pelo Parque da Cidade.

            A vertente religiosa inclui procissões e missas. A Igreja de Matosinhos, recentemente recuperada terá aspecto primodial nestas celebrações. A Igreja erigida no século XVI e remodelada no século XVIII (por Nicolau Casoni) constitui uma obra notável de estilo barroco joanino. A imagem do Senhor de Matosinhos encontra-se aqui em exposição.

            De notar que existem muitos eventos paralelos associados à romaria do Senhor de Matosinhos que passam não só pela animação popular e actividades religiosas mas também pela cultura e desporto por exemplo.